A Arte da Comédia – Crítica de Ida Vicenzia

Escrito por Thelmo Fernandes . Publicado em CLIPPING TEATRO

sábado, 23 de fevereiro de 2013

"A ARTE DA COMÉDIA"

Elenco de "A ARTE DA COMÉDIA", autor, Eduardo de Filippo.
(foto Paula Kossatz)

CRÍTICA TEATRAL

IDA VICENZIA FLORES

(da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT)

(Especial)

     “A Arte da Comédia”, de Eduardo De Filippo, cartaz do Teatro Maison de France, Rio de Janeiro, apresenta todos os ingredientes de uma “comédia bem feita”. A “Trupe Fabulosa”, composta pelos atores Sérgio Módena, Erika Ribas e Gustavo Wabner resolveu, em boa hora, nos lembrar quais são os componentes desse tipo de comédia, e os colocou em cena. Filippo nos lembra que a comédia clássica se desenvolve passo a passo. O primeiro deles é o compartilhamento: os atores (alguns) sabem o que está acontecendo em cena e compartilham desse conhecimento com a plateia, nascendo assim o jogo. A maneira pela qual a história se desenvolve nos faz pensar que se trata de um Molière, com tempero italiano! Há outras citações, como a de Pirandello (negada pelo autor). 

O segundo passo a localizar é onde se passa a ação. No caso, uma aldeia da região napolitana, onde o menor acontecimento tem reflexo magnífico no todo, exuberante, de seus habitantes. Em situações novas como a mudança do prefeito, o reflexo é obviamente ampliado. O terceiro passo se resume em sustentar o quid pro quo (o famoso qüiproquó), o engano de se tomar o sim pelo não. A plateia se delicia com a confusão, e os atores também! E as surpresas começam a pipocar, aqui e ali.

Primeira surpresa: o elenco. Quem sabia que Alcemar Vieira era tão bom comediante? Comédia em pé, vejam só! Revejo meus conceitos. Vieira é o médico da aldeia? ou um ator enlouquecido assumindo a personalidade “vibrante” do médico? Eis que a confusão se estabelece na cabeça do prefeito De Caro (interpretado por Thelmo Fernandes). As visitas feitas a ele pelos moradores da região somam-se, e todos os visitantes apresentam reivindicações, enlouquecendo e deixando em dúvida o prefeito. O segundo personagem é o padre, interpretado por Celso Andre (outra surpresa). O pároco, ou cura, como quiserem, está à beira de um ataque de nervos por causa de uma paroquiana. Sua atuação também é tão “vibrante”, que leva o prefeito a ter certeza da “tramoia” do ator – ou seja, a companhia que Campese (o ator) dirige, foi bater à sua porta, tal como o prometido. No final da cena do padre há uma intervenção do bebê nos braços do sacristão (Saulo Segreto). Verdade, ou mentira?

Há mais visitantes. A professora da aldeia, uma doida varrida paranoica que enlouquece o prefeito. Erika Riba, no papel da professora, atinge o limite do que se convencionou chamar de “o comportamento napolitano”. Há, na cena, o casal de testemunhas, interpretado por Ricardo Souzedo e Poena Vianna. E, coroando os acontecimentos, o surgimento do farmacêutico, o Senhor Pica (Sérgio Somene), um gigantesco urso que estrebucha no chão do gabinete do prefeito, morrendo envenenado. Nada é real, nada é fantasia. Enquanto esta rede de enganos vai sendo tecida, o secretário do prefeito (interpretado por André Dias), “pequena autoridade autoritária”, estimula o prefeito a segui-lo, nesse jogo de situações mal resolvidas. Quem se sai bem em seus propósitos é o “sofista, enfadonho, fanático” ator, assim qualificado nas  palavras do prefeito! 

Voltemos ao primeiro encontro do prefeito e do ator: De Caro e Campese desenham acontecimentos futuros, acompanhados pelo secretário do prefeito e pelo recém contratado “auxiliar de gabinete” (Alexandre Pinheiro). Há também a presença da “mamma” italiana da província, a "mantenedora", interpretada pela atriz Teresa Tostes, a mulher dos quitutes, que se penaliza da fraqueza física do “ator”, prometendo-lhe farta refeição: e ele, sua mulher, sua filha e seu neto...

A adesão (extremamente simpática, e suspeita, por sinal) do prefeito De Caro declarando a sua paixão pelo teatro é imediatamente posta a nu, através da aversão que demonstra pela vida miserável do artista. A peça é marcada por esse encontro, no qual a sutileza do ator/empresário Campese (Blat) é marcante. O prefeito (excelente Thelmo Fernandes) declara a sua paixão pelo teatro, ao mesmo tempo em que exterioriza o seu desprezo pela “vida do ator”. A imagem do prefeito reflete o pensamento alimentado pela burguesia, pelo “desprezível” cotidiano do ator. 

Os diálogos (brilhantes) vão desvendando o eterno saltimbanco. Malgré lui, a serviço dos poderosos. (Campese até que é um exemplar independente). Ricardo Blat, imperdível, em sua maneira sutil - e cerebral! - de criar rotas de fuga. O confronto entre Ricardo Blat e Thelmo Fernandes é delicioso e nos faz sorrir, pela inteligência da cena. Ponto também para o diretor, Sérgio Módena. O final da entrevista dos dois, no início da peça (1º Ato), é tomado pelo “Eureka!” – da luz de Tomás Ribas - enfatizando as artimanhas do ator. O “imbroglio” vai começar! 

Como bom leitor de almas, Campese, o ator, encontra a maneira de alterar a visão do prefeito, fazendo-o viver a suspeita do poder da máscara. Ao sair de cena, em leve ameaça, o ator promete trazer seu elenco disfarçado em cada um dos visitantes que o prefeito receber em seu novo gabinete. A dúvida está lançada. Depois dessa ameaça o inferno tem início, para De Caro, o prefeito. Assim começa o embate entre realidade e fantasia.

“A Arte da Comédia”, de Eduardo De Filippo, é inspirado na experiência de vida do autor. Ricardo Blat vive, em cena, os embates do verdadeiro amante do teatro que é Filippo. A percepção desse ator brasileiro sobre seu personagem é rebuscada e inteligente. Um primor de acabamento cênico. E o teatro brasileiro está de parabéns por ter apresentado o autor napolitano com tanta propriedade. Já o conhecíamos de anteriores montagens, no século XX, com a histórica apresentação de “Filumena Marturano”, interpretada por Yara Amaral, e “Sábado, Domingo e Segunda”, do mesmo autor. 

Ficha técnica elogiável: Tradução: Márcio Aurélio; Direção: Sérgio Módena; Cenário: Aurora de Campos; Figurino: Antonio Menezes; Luz: Tomás Ribas; Trilha sonora original: Fernando Lauria; Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco.

É bom ver bom teatro!