A Arte da Comédia – Crítica de Lionel Fischer (29/01/2013)

Escrito por Thelmo Fernandes . Publicado em CLIPPING TEATRO

Maravilhosa versão de obra-prima
Lionel Fischer

Ator, diretor e autor dramático italiano, Eduardo De Fillippo (1900-1985) começou a fazer teatro com seus irmãos Titina e Peppino, baseando seu trabalho nos princípios da commedia dell'arte. Depois da Segunda Guerra Mundial, De Fillippo aderiu à corrente neorealista e obteve grande êxito com "Napoles milionária" (1945) e "Filumena Marturano" (1946). Sempre incorporando aos seus espetáculos aspectos do folclore napolitano (músicas e temas), a partir de 1964 De Fillippo se junta a Paolo Grassi na direção do Teatro São Ferdinando, em Nápoles. Autor de mais de 40 textos, Eduardo de Fellippo é considerado, para o teatro italiano, tão importante quanto Luigi Pirandello.

E aqui o público poderá constatar as razões da enorme admiração que o autor desperta não apenas na Itália, mas em todo o mundo. Verdadeira obra-prima, "A arte da comédia" (Teatro Maison de France) chega à cena com direção de Sergio Módena e elenco formado por Ricardo Blat, Thelmo Fernandes, Erika Riba, André Dias, Alcemar Vieira, Celso André, Alexandre Pinheiro, Ricardo Souzedo, Teresa Tostes, Poena Vianna, Saulo Segreto e Sergio Somene.

Tendo como ponto de partida o diálogo entre uma Autoridade (o prefeito) e um Artista (diretor de uma companhia que teve quase todo seu acervo destruído por um incêndio), tal conversa logo envereda para um campo totalmente inesperado. O artista está ali para solicitar algum tipo de ajuda, evidentemente, mas logo se estabelece entre os dois um debate que em muito transcende questões de ordem financeira - por sinal, sequer mencionadas. O que passa a ser discutido pelos dois, com veemência e paixão, é o próprio Teatro. Teria ele ainda alguma função social a cumprir, capaz de validar sua existência?
Como ambos não chegam a nenhum acordo, o autor cria a seguinte e genial alternativa. O diretor sabe que o prefeito acaba de chegar, não conhece ningém na cidade e tem audiência marcada com ilustres personalidades locais; então propõe que receba alguns membros de sua trupe, garantindo que o prefeito jamais conseguirá saber se estará recebendo pessoas reais ou atores representando no lugar delas. Já fatigado, o prefeito expulsa o diretor. Mas logo começam a surgir as tais personalidades...ou seriam os atores da companhia?
Contendo ótimos personagens, diálogos brilhantes e uma ação que mantém o espectador absolutamente magnetizado, "A arte da comédia" recebeu maravilhosa versão cênica de Sergio Módena. Não tanto no que diz respeito às marcações, em geral muito simples, mas em total sintonia com as exigências do material dramatúrgico. Refiro-me, em especial, à sua atuação junto ao elenco, que é aqui o que mais importa, pois se trata de um texto que não pode ser encenado como merece na ausência de verdadeiros atores.
Como são muitos os intérpretes, estaria exigindo um tempo excessivo do amigo leitor/espectador caso me detivesse em cada performance. Ainda assim, e mesmo que admirando sem reservas a atuação de todos que estão em cena, seria por demais injusto não
particularizar ao menos duas: as de Ricardo Blat (diretor) e Thelmo Fernandes (prefeito).
O primeiro, um dos melhores, mais inventivos e corajosos atores brasileiros, exibe aqui, uma vez mais, seu vastíssimo arsenal de recursos expressivos, tanto no que concerne à voz quanto ao corpo. Além disso, Blat sempre me impressiona por sua inteligência cênica e pela originalidade de suas escolhas. E se alguém ainda duvida de que o teatro pertence ao Ator, basta assistir à espécie de prólogo que introduz a história. Nele, Blat está simplesmente sublime!


Quanto a Thelmo Fernandes, vindo de excelente atuação em "Não sobre os rouxinóis", onde interpretava um personagem violento e abjeto, aqui o ator exibe dotes de comediante que até então desconhecia - ao menos nesta dimensão. Em muitas passagens, Thelmo está engraçadíssimo e não por fazer graça, mas por vivenciar profundamente o progressivo atordoamento de seu personagem. E nos momentos iniciais, quando o prefeito ainda detém - ou julga deter - total controle sobre a situação, Thelmo encarna de forma irrepreensível um homem inteligente, articulado e afeito a discussões nada burocráticas. Sem dúvida, uma das melhores atuações deste início de temporada e certamente a melhor de Thelmo Fernandes ao longo de toda a sua carreira.


Com relação à equipe técnica, o mesmo brilho e eficiência se fazem presentes nos trabalhos de todos os profissionais envolvidos nesta deliciosa empreitada teatral - Marcio Aurélio (tradução), Aurora dos Campos (Cenário), Antônio Medeiros (figurino), Tomás Ribas (iluminação) e Gabriel Mesquita (composição da trilha sonora original).