Ator leva ao cinema o personagem Giovanni Improtta

Escrito por Thelmo Fernandes . Publicado em CLIPPING CINEMA

"Decisão difícil", diz José Wilker sobre estreia como diretor no cinema

 

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Apesar da vasta experiência como ator, José Wilker nunca havia se arriscado na direção de um filme. Até agora. Nesta sexta-feira (17), estreia nas salas do País Giovanni Improtta, primeira incursão do pernambucano nas telonas. O fato é curioso, visto que, além das quase cinco décadas de dedicação à dramaturgia, Wilker chegou a dirigir novelas e peças para a TV - incluindo o humorístico Sai de Baixo, entre os anos de 1997/2002 - e é hoje considerado um dos grandes especialistas de cinema no Brasil.

"Foi uma decisão difícil dirigir", confessou o ator de 65 anos em coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (14), em São Paulo, após a exibição da comédia que traz de volta ao público o personagem que ele próprio tornou popular em 2005, na novela Senhora do Destino. "Mais que uma escolha por dirigir, me senti homenageado, abençoado. E isso é sempre difícil, porque, quando essa sensação bate na pessoa, você não se considera merecedor do cargo."

Inicialmente, no entanto, caberia ao renomado diretor Cacá Diegues a função. Era assim, pelo menos, que pensava Wilker quando adquiriu os direitos do livro Prendam Giovanni Improtta, de Aguinaldo Silva, no mesmo ano da exibição da novela na Globo. Mas o cineasta preferiu passar a bola para o ator, que via como a pessoa certa para comandar um longa-metragem sobre o personagem com quem tinha tanta intimidade.

"Depois de Xica da Silva (1976), eu e Wilker fizemos cinco, seis filmes juntos, nos tornamos amigos e eu sempre soube que ele era um cinéfilo, um grande conhecedor de cinema. Então não foi uma aventura dele essa estreia. Eu sabia exatamente que ele tinha talento e conhecimentio para fazer o filme", elogiou Diegues.

Giovanni Improtta é um personagem antigo. Dono de uma escola de samba, o bicheiro fez sua primeira aparição ainda nos anos 1970, quando protagonizou O Homem que Comprou o Rio, livro de Aguinaldo Silva. Décadas depois, voltou à cena em Senhora do Destino, em uma versão mais light incorporada por José Wilker, que deu ao "contraventor", como o próprio sw define a todo momento, algumas de suas mais marcantes características, como o discurso repleto de pronomes e erros de pronúncia.

Mas a produção não quis se acomodar no gancho da novela, fazendo uma sequência direta para atrair um público fácil às salas de exibição. Giovanni Improtta é ambientado anos antes deSenhora do Destino, mais especificamente no Brasil pós-Ditadura Militar, no qual o protagonista se vê na necessidade de tornar seus negócios legítimos a fim de ascender socialmente. Para isso, conta com ajuda de um pastor/vereador, interpretado por Thelmo Fernandes, de um delegado de polícia, papel de André Mattos, e de seus três capangas, que, assim como os colegas de elenco, fazem uma versão caricata de suas funções.

"Depois da novela, eu queria mostrar uma cidade nova, o Rio de Janeiro de 15 anos atrás. E o Giovanni espelha essa realidade com humor. A experiência anterior ajudou na forma da personagem, mas agora ele tem aspirações outras e acaba sendo um espelho das cidades novas em que o Brasil vive, das novas aspirações", explicou Wilker, fazendo um paralelo das características do protagonista com uma história que vivenciou certa vez.

"Tive a oportunidade de conhecer uma pessoa que queria comprar um 'Home Tite' (Home Theater, na forma de pronúncia de Giovanni). Depois que ela comprou, me convidou para assistir a um filme em sua casa, com todo aquele equipamento, som surround, tela imensa, poltronas como de salas de cinema. Só que, no dia dessa 'estreia', havia umas 50 pessoas lá e todas estavam de costas para a TV. É justamente essa a personagem que eu queria mostrar em Giovanni Improtta."

Por trás do humor, o longa procura mostrar o Brasil como seus cidadãos o conhecem, caracterizado pela corrupção e pelo abismo que separa as classes sociais mais abastadas das mais pobres. "Uma das coisas muito legais do filme é justamente tratar desses temas relevantes de forma irônica, bem humorada, feliz. Quando colocamos como objeto o Rio e há só um tiro em toda a história, é genial", opinou Mattos. "É um retrato nosso. E é ótimo, porque conseguimos rir e pensar ao mesmo tempo", concordou Fernandes.

Liberdade
Além da intimidade com o protagonista e da oportunidade de fazer sua estreia como diretor, uma das coisas que atraíram Wilker para o outro lado das câmeras foi a liberdade de escolha do elenco. Entre Andréa Beltrão, Thelmo Fernandes, André Mattos, Felipe Camargo, Milton Gonçalves, Jô Soares, entre outros, o cineasta escolheu com Cacá Diegues um a um os atores que fariam parte da produção - e partiu dessa decisão todo o cronograma da produção.

"Existem algumas atrizes/atores que são sempre minha primeira escolha para jantar, conversar, trabalhar. E a Andréa é uma delas. Ela é uma atriz fora de série. Eu não tinha duas opções, ela sempre foi minha única opção, mesmo que nem personagem tivesse para ela quando a chamei", afirmou Wilker sobre Beltrão, que vive a mulher mulher do protagonista no longa.

"Da mesma forma foi com os outros. O André, o único do filme que esteve na novela, eu sabia desde o início que queria do meu lado. O Thelmo também: eu o conheci em uma peça de teatro e na hora sabia que era ele. Muitas vezes você quer fazer uma cena no filme, mas não sabe como explicar para os atores. E essas pessoas 'talentosérrimas' que trabalharam comigo acabaram sendo uma iluminação para mim."

Mas a inspiração não veio somente da história que inspirou o longa, do roteiro ou dos colegas. Ela também surgiu nas ruas, onde Wilker conseguiu ajuda para compor o mais marcante traço de Giovanni: seu português atrapalhado - responsável por gerar pérolas como "felomenal" e "lei de Smurf".

"A melhor coisa que pode acontecer com uma personagem é o público se apropriar dela. Na época da novela, eu inventei a coisa dos pronomes, que achava engraçada porque no Brasil as pessoas que usam mais pronomes são vistas como mais cultas, então vai que alguém acreditasse mais nele por causa disso. Mas, no geral, eram as pessoas que me inspiravam: todo dia alguém me ensinava uma tolice quando eu estava indo gravar", afirmou Wilker.

"Para alguns atores, interpretar é viver no cotidiano a personagem, é um processo de imersão. Mas eu não sou assim. Sou observador, me inspiro com o que vejo no dia a dia e, depois, prefiro esquecê-la, deixá-la pendurada no camarim e viver minha vida."