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O Beijo no Asfalto, o Musical - Crítica Blog Circuito Geral

Escrito por Thelmo Fernandes . Publicado em BLOG

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Inusitado, original, surpreendente
 
Inusitado, original, surpreendente – três dentre os incontáveis atributos a serem, merecidamente, imputados a atual produção de “O Beijo no Asfalto”, dirigida por João Fonseca. Num primeiro instante, o ineditismo do espetáculo se deve ao fato de ser a primeira leitura de uma obra selecionada em meio à produção dramatúrgica de Nelson Rodrigues, nos moldes de um musical, consolidada pela surpreendente e contagiante trilha sonora de Claudio Lins e pela direção musical de Délia Finsher, que amplificam, de maneira pungente, a perturbadora essência daquela obra.
 
Adicionalmente ao fato de se tratar de um musical, a presente versão de “O Beijo no Asfalto”, arquitetada pelo próprio Cláudio Lins, agrega ao texto e à dramaturgia, cenas que estilizam e extrapolam a realidade do roteiro original, transportadas para uma dimensão distinta que beira à fantasia delirante – exacerbada pelo  diversificado figurino de Claudio Tovar, acompanhado do visagismo carregado nas tintas, que agrega aos estilos clássicos, característicos dos núcleos sociais e institucionais brasileiros, a alegoria carnavalesca, já há muito inserida nos padrões da vida como ela é, segundo Nelson Rodrigues. O articulado, funcional e simplificado cenário de Nello Marrese serve, estrategicamente, como base estrutural do espetáculo, associado ao permanente dramático desenho de luz de Luis Paulo Neném, que define o vermelho e o magenta como padrão cromático do piso palco, como se tomado por poças de sangue decorrentes da morte de um atropelado ou dos produtos de uma imprensa marrom, cuja meta visa, única e exclusivamente a venda de seus jornais, custe o que custar e a quem custar – base do argumento de “O Beijo no Asfalto”. Cintila no palco, uma constelação composta por catorze astros cujas grandezas estão associadas ao seu tempo no meio artístico, contudo, equilibrados entre si por uma força gravitacional, dispensando exponenciais e visando à harmonia final de um thriller policial e de suspense, com duração de cento e cinquenta minutos, em dois atos.
 
Atento às mais diversificadas reações do público, o Circuito Geral constata, numa das apresentações do Teatro Sesc Ginástico no Rio de Janeiro, que Nelson Rodrigues ainda é capaz de surpreender e emocionar a platéia, a despeito do tempo decorrido desde a publicação de “O Beijo no Asfalto” em 1960. Dentre as espontâneas manifestações passíveis de serem observadas, o espectador repudia a sordidez que abala a reputação do protagonista Arandir – encarnado por Claudio Lins; sofre com o realismo do desamparo de sua esposa Selminha – adensado por Laila Garin; solidariza com a pluralidade e permissividade afetiva de sua cunhada Dália – valorizada por Yasmin Gomlevsky; se surpreende com a retidão moral familiar assumida por seu sogro, Aprígio – a partir de um forte viés reptiliano definido por Gracindo Jr.; repudia o jornalista Amado Ribeiro – elevado às alturas por Thelmo Fernandes; reflete sobre a conduta policial e timidamente se liberta dos grilhões das doutrinas sociais, num crescendo emotivo que eclode na ovação e no aplauso incontido diante do gran finale, digno da visionaridade rodriguiana.
 

“O Beijo no Asfalto – O Musical” conta com dezesseis números musicais que, deliciosamente, se mimetizam com sucessos consagrados de Adelino Moreira, Ataufo Alvez, Dolores Duran, Jackson do Pandeiro e Miguel Gustavo, dentre outros, que estruturam o contraste de valores ideológicos e morais de uma sociedade androcêntrica de um época que, pelas surpreendentes manifestações da plateia, sinaliza que, até os dias de hoje, aparentemente, nada mudou.