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‘O estranho caso do cachorro morto’ no Teatro Leblon

Escrito por Thelmo Fernandes . Publicado em BLOG

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7 de abril de 2014 por Redação Sem comentários

‘O estranho caso do cachorro morto’ no Teatro Leblon

Christopher Boone tem quinze anos e mora numa pequena cidade da Inglaterra com seu pai, o encanador Ed. Ele não gosta de ser tocado – reage com estridência e angústia – e se expressa demonstrando um raciocínio literal. Certa manhã, ele é encontrado, imóvel, ao lado do cão de sua vizinha, a Sra. Shears. O animal havia sido morto a golpes de forcado e, num primeiro momento, o rapaz é acusado do crime. O desejo de solucionar o mistério do cão assassinado, descobrindo seu autor, vai dar a partida nos acontecimentos que conduzem Christopher, e o público, a muitas e inesperadas descobertas.

Lançado em 2003, o livro de Mark Haddon (no original, The Curious Incident of the Dog in the Night-Time), transformou-se rapidamente em best seller (foi lançado no Brasil pela Ed. Record e está esgotado). Dez anos depois, sua adaptação para o teatro – assinada por Simon Stephens – arrebatava sete prêmios Olivier, o mais importante do teatro inglês: melhor diretor, melhor peça, melhor ator e atriz coadjuvante, além dos prêmios de som, luz e cenário. Foi o grande vencedor de 2013.

“Ganhei o livro tempos atrás e fiquei fascinado pela história”, conta Moacyr, que adquiriu os direitos da adaptação teatral. A tradução foi feita por Rodrigo Fonseca. “Aliás, o tema veio ao encontro do meu fascínio antigo pelo autismo, uma questão sobre a qual adoro ler e estudar, na medida em que faz o questionamento da individualidade, do acesso à educação, da convivência com as diferenças”. Exato como o autor do livro, Mark Haddon, declara em entrevista ao jornal The Guardian : “É um romance sobre a diferença, e não sobre a condição. Vamos sendo colocados diante de um mundo despreparado para o convívio com as individualidades e permeado de meias verdades”.

Uma história de superação
Christopher, num primeiro momento acusado de matar o cão da vizinha, resolve partir para uma investigação – que relata num caderno, o seu ‘livro’-, ajudado pela Srta. Siobhan, sua mentora na escola especial que frequenta. Sabrina Korgut faz a professora Siobhan. O papel de fôlego, em cena todo o tempo, foi entregue a um jovem ator, escolhido através de em audição: Rafael Canedo, selecionado dentre mais de 60 candidatos. “O papel carrega a peça, e o ator precisa mostrar claramente que não é um caso de piedade”, afirma Moacyr.

O pai, Ed, é vivido por Thelmo Fernandes. A mãe, Judy, por Silvia Buarque. “Fiz audições para todos os papeis, a não ser os dos pais”, diz o diretor. “Pensei em Thelmo nesse papel de enorme carga emocional, do pai que abraça a luta pelo filho, capaz de arrebatamento e fúria; e em Silvia, com quem trabalhei em Escola de Bufões e Epifanias, para que trouxesse uma doçura à tristeza e perturbação dessa mãe com tanta dificuldade em lidar com esse filho diferente”.

O cenário, elaborado por Ana Santanna e Monica Martins, remete diretamente ao pensamento esquemático e sem nuances emocionais do menino, fortemente calcado na lógica e na matemática. “Criamos um fundo milimetrado, salpicado de estrelas, e os objetos de cena são blocos de um conhecido jogo infantil de montar edifícios e casas, em grande formato”, diz Ana. “Com formas geométricas simples em cores primárias, é ao mesmo tempo a ênfase no concreto e a evocação da imaginação que o teatro proporciona”.

Embora a condição do personagem não seja citada nominalmente em nenhum momento, ele sofre da Síndrome de Asperger.

Autismo e Asperger
A Síndrome de Asperger, um dos graus menos radicais do autismo – que, inclusive, já não é mais um diagnóstico diferenciado, mas integra o espectro do TEA: Transtorno do Espectro Autista manifesta-se como uma dificuldade de interação social e da expressão de emoções, uma interpretação muito literal da linguagem, reação negativa a mudanças na rotina. O conhecido neurologista Oliver Sacks aponta “dificuldade de interação social, de comunicação verbal e não verbal, das atividades lúdicas e imaginativas”. Esse conjunto de sintomas se concilia com desenvolvimento cognitivo normal ou alto – alguns dos portadores da Síndrome são altamente dotados em campos como a matemática.

Segundo a Mundo Azul, grupo de pais de autistas dedicado ao esclarecimento do público e à busca de debate em torno da condição, algo em torno de 0,3% da população brasileira teria algum tipo de Transtorno do Espectro do Autismo – são números do único estudo epidemiológico sobre autismo no país, de 2011. Sendo assim, haveria hoje no Brasil pelo menos 570 mil pessoas com algum tipo de transtorno do espectro do autismo, mencionando apenas os casos já diagnosticados. O processo para diagnóstico, no entanto, ainda é demorado, e nem todos os pais têm suficiente conhecimento do assunto para buscar ajuda quando percebem que seus filhos não se desenvolvem como as outras crianças.

Serviço

O Estranho Caso do Cachorro
De 10 de abril a 29 de junho (dias 4, 5 e 6/4: ensaio aberto)
TEXTO: MARK HADDON | ADAPTAÇÃO: SIMON STEPHENS | DIREÇÃO: MOACYR GOES

Com
Thelmo Fernandes / Sabrina Korgut / Silvia Buarque
Leon Góes / Rafael Canedo / Carla Guidacci
Eduardo Rieche /Ricardo Gonçalves / Paulo Trajano / Fabiana Tolentino
Cenário: Ana Santanna e Monica Martins
Figurinos: Joana Mendonça e Luiza Oliveira
Desenho de luz: Tomás Ribas
Direção musical: Ary Sperling / Trilha Sonora Original: Rafael Sperling

Direção de Produção: Moacyr Goes / Produção Executiva: Juliana Lago / Assistente de direção 1 : Matheus Senra /Assistente de Direção 2 e Produção: Fernanda Curi / Video Mapping: Lucas Canavarro e Renan Brandão

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