Imprimir

Ícaro Silva protagoniza musical sobre o cantor Wilson Simonal

Escrito por Thelmo Fernandes . Publicado em BLOG

Espetáculo mostra ascensão e queda do músico

RICARDO SCHOTT

Ícaro Silva caracterizado como Simonal

Foto:  Leo Aversa/ Divulgação

Rio - Experiente tanto em musicais quanto na TV, Ícaro Silva foi escolhido entre mais de mil atores para o desafio de viver um dos personagens mais complexos da história da MPB: Wilson Simonal (1938-2000). Dirigido por Pedro Brício e roteirizado por Nelson Motta e Patricia Andrade, ‘S’imbora, O Musical – A História de Wilson Simonal’ estreia 15 de janeiro no Teatro Carlos Gomes e detalha, por intermédio de mais de 40 músicas do seu repertório, a bizarra história de ascensão e queda de um dos cantores mais populares do Brasil nos anos 60, famoso a ponto de rivalizar com Roberto Carlos, mas jogado no ostracismo até sua morte.

“O fato de Simonal ter ficado afastado de seu próprio público é o que mais me toca. É a maior dor que um artista pode ter. Ainda mais no caso de um cara com o poder de comunicação dele”, espanta-se Ícaro, que já fizera Jair Rodrigues (1939-2014), amigo e contemporâneo de Simonal, em ‘Elis — A Musical’. Só para lembrar: em 1972, ainda famosíssimo, Simonal mandou um amigo policial dar uma dura em seu contador, Rafael Viviani, que o teria roubado. Mas os policiais torturaram Rafael, e no temido Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), onde os presos políticos eram interrogados e torturados. O fato repercutiu em todos os meios de comunicação e deu fama de ‘dedo-duro’ para o artista. Queimado até o fim da vida, o cantor nunca mais se recuperou e virou “um zumbi, um cara que ninguém sabia se estava morto ou vivo”, como diz Nelson Motta.

“‘S’imbora’ começa bem alegre, mostrando como era o Simonal no palco. Ele dominava a plateia, tinha o público na mão. E não daria para o musical terminar de forma triste”, conta Motta. Para a emoção dos fãs, momentos como o dueto do cantor com a jazzista Sarah Vaughan (vivida por Cássia Raquel), interpretando o hit ‘The Shadow of Your Smile’, estão no roteiro. E sucessos como ‘Meu Limão, Meu Limoeiro’, ‘Mamãe Passou Açúcar Em Mim’ e ‘Tributo a Martin Luther King’.

Mais: são dois protagonistas. Quem narra a história do Simonal é seu lançador, o agitador cultural e compositor Carlos Imperial (1935-1992), interpretado por Thelmo Fernandes, em atuação bem politicamente incorreta. “O Imperial da peça é ‘escrotérrimo’, engraçadíssimo, machista, fala um monte de baixarias. E mesmo que na vida real tenha morrido antes do Simonal, narra toda a vida dele”, adianta Fernandes.

“Os altos e baixos de Simonal, que depois passou a beber muito, podem levar muita gente a se identificar com o personagem”, diz Brício. “Todo mundo já sofreu um revés na vida. E o dele foi muito impiedoso, porque ele foi jogado no lixo da História”, conta o diretor. “Numa das cenas mais fortes, passada lá pelos anos 90, Simonal está num bar, bebendo, e não é reconhecido. E canta ‘Cordão’, uma música do Chico Buarque. Você vê o abandono, o sofrimento.”

Já a musicalidade e a alegria do cantor dominam o primeiro ato. “Num dos números, ele canta ‘Lobo Bobo’ (bossa nova de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli) ao mesmo tempo com a Elis Regina (interpretada por Marina Palha), com o Roberto Carlos (Victor Maia) e com o Jair Rodrigues (Jorge Neto), correndo de um lado para outro do palco”, conta o diretor.

Cantando ‘Carango’ (Nonato Buzar), Ícaro/Simonal aparece dirigindo um carro. “Ele está com roupa de trabalho, vendo as pessoas irem trabalhar. Aí fica com roupa de praia. É um momento bem alegre!”, diz Brício. Outros nomes ilustres a surgir na peça são Jô Soares, Boni (ambos Marino Silva), Ronaldo Bôscoli (Kadu Veiga) e, representando o período em que Simonal viajou para o México com a seleção brasileira, na Copa de 1970, Pelé (Jorge Neto) e Zagallo (Paulo Trajano, que também faz o apresentador Flávio Cavalcanti).

O Simonal criança, filho de uma empregada doméstica, surge interpretado pelos atores mirins JP Rufino e JG D’Aleluia. Quem faz o filho mais velho do cantor, Wilson Simoninha, é o mesmo Jorge Neto que faz Jair Rodrigues no musical. “É estranho me ver transformado em personagem”, brinca Simoninha. “Mas é legal ver a história da minha família contada. Deixamos o Ícaro à vontade para buscar dentro de si próprio o Simonal, através do que ele acredita.” Ícaro confirma e adianta: “Meu desafio é evocar o Simonal sem transformar o personagem num cover.